A explicação definitiva, na minha opinião, para a questão do porquê somos como somos, alguns são os magros de ruim e outros vivem brigando com a balança.
Este post foi retirado na íntegra do blog de nosso querido Dr. Souto.
Fonte: http://www.lowcarb-paleo.com.br/2014/01/sobre-galgos-e-bassets.html
A pergunta chega todos os dias: “Não importa o que eu faça, não importa o quanto eu restrinja os carboidratos ou mesmo as calorias, meu peso está estacionado em um platô há 3 meses”.
Pois é. Isso tem um nome. É o “set point“, sobre o qual já escrevi em outra postagem. É o ponto de equilíbrio escolhido pelo nosso corpo. É curioso como as pessoas aceitam naturalmente a existência dos inúmeros outros “set points” da nossa fisiologia, mas têm dificuldade de aceitar que possa haver um set point para quantidade de gordura corporal. Alguns exemplos?
- Osmolaridade. Refere-se à concentração do sangue. O sangue nunca fica muito concentrado nem muito diluído. Há um controle rígido da osmolaridade do sangue. Quer fazer um teste? Beba uma 1 litro d’água. Seu sangue ficará aguado, diluído? Nada disso! Em pouco tempo você começará a urinar, até que a concentração do sangue fique igual a antes; fique um tempo sem beber nada, e virá uma sede irresistível – o sensor que detecta estas mínimas flutuações da concentração do plasma é um osmostato, localizado no hipotálamo. É ele que determina a excreção de água pelos rins e a sensação de sede,automaticamente e com alta precisão.
- Temperatura. Nossa temperatura é extremamente regulada, o que é incrível dado o grau de variação das temperaturas externas a que somos submetidos, bem como à variação do calor gerado internamente pela atividade física e metabolismo. Não importa se é verão e está fazendo 40 graus, ou se é inverno e está fazendo 5 graus, sua temperatura oscila apenas DÉCIMOS de grau. Como é possível? Pois no hipotálamo (olha ele aí de novo) há um termostato. Se sua temperatura cai alguns décimos, você treme (para gerar calor) e sente frio, o que o leva a comportamentos que naturalmente aumentam sua temperatura (cobrir-se, ir para o sol, etc). Se a temperatura interna sobe um pouco, você produz suor para dissipar o calor e tem a sensação de calor, que o leva a comportamentos que diminuem a temperatura (vontade de ir para a sombra ou para dentro d’água). Quando ocorre uma febre, o ajuste do termostato sobe, digamos, 2 graus. E então o corpo passa a trabalhar em direção a esta nova temperatura: haverá tremores (geração de calor) e sensação de frio, que fará com que você vista casacos ou cubra-se, até que a temperatura chegue lá. Se a temperatura for reduzida artificialmente (entrando em uma banheira de água gelada, por exemplo), a temperatura baixará um pouco, e por pouco tempo, pois o corpo buscará novamente o set point. Se, contudo, resolvermos a causa da febre, o set point baixará, e o corpo voltará sem nenhum esforço à sua temperatura normal.
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| Um basset saudável e campeão.
Obviamente, esta característica pode ser exagerada pelos hábitos alimentares: |
| Este basset provavelmente come a comida do dono!
O set point de um basset pode ser mais baixo, quando comparado ao de outros bassets: Já o galgo não engorda por mais que coma – eu simplesmente não consegui achar uma imagem de um galgo gordo. O basset tem uma faixa de variação de set point geneticamente determinada. Com certeza este basset da foto acima está bem mais saudável do que o anterior. Mas um basset nunca será um galgo. Não importa quanto exercício um basset faça, quantos carboidratos ele consuma, um basset sempre parecerá mais gordinho e mais lento do que um galgo. Em humanos, há uma concordância de aproximadamente 90% entre gêmeos idênticos no que diz respeito à gordura corporal. Ou seja, quase 90% da quantidade de gordura que você têm no corpo é determinada geneticamente (Anon, 2001. A twin study of weight loss and metabolic efficiency. , Published online: 22 March 2001; | doi:10.1038/sj.ijo.0801559, 25(4). Available at: http://www.nature.com/ijo/journal/v25/n4/full/0801559a.html) Mais do que isso, a eficiência energética (o quanto a perda de peso prevista durante uma restrição calórica concorda com a perda observada – algumas pessoas perdem mais peso do que se previa, outras perdem menos) também é geneticamente (77%) determinada: |
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| Cada par de números identifica um par de gêmeos idênticos – os que estão abaixo da linha diagonal perdem peso com mais dificuldade, os que estão acima, perdem peso facilmente. Observe que os pares estão sempre relativamente próximos, indicando que a genética determina fortemente a facilidade ou dificuldade em emagrecer.
O contrário também foi demonstrado: a genética influencia a resistência ao ganho de peso em pessoas que recebem 1000 calorias a mais todos os dias (uns ganham peso, outros não): Levine, J.A., Eberhardt, N.L. & Jensen, M.D., 1999. Role of Nonexercise Activity Thermogenesis in Resistance to Fat Gain in Humans. Science, 283(5399), pp.212–214. Available at:http://www.sciencemag.org/content/283/5399/212 No mundo do fisiculturismo, há muito tempo se sabe que o mesmo fenômeno de diferentes tipos corporais, geneticamente determinados, ocorre conosco. Grosseiramente, as pessoas podem ser divididas em ectomorfos, mesomorfos e endomorfos. |
- Ectomorfos: magros, membros longos e esguios. São as pessoas que querem ganhar peso mas, não importa o que façam, não conseguem. Têm muita dificuldade de ganhar músculos também, mesmo com exercícios e suplementação. São os “galgos” humanos;
- Mesomorfos: são tipos atléticos, “sarados”, que ganham massa muscular com muita facilidade e são naturalmente mais fortes. Ganham gordura com mais facilidade do que os ectomorfos, mas perdem com facilidade também;
- Endomorfos: membros curtos, musculatura mais forte porém menos definida, ganham gordura com muita facilidade e têm dificuldade para emagrecer. Têm a musculatura menos definida. São às vezes chamados de “atarracados”. São os bassets.

As modelos que aparecem nas capas de revistas são ectomorfas e, frequentemente, submetidas a Photoshop. Esse é o modelo de beleza socialmente criado para mulheres. Os modelos masculinos são mesomorfos e, frequentemente, anabolizados. Esse é o modelo de beleza socialmente criado para homens.
Embora um basset nunca possa virar um galgo, não penso que os bassets se entristeçam com isso. Aliás, pelo contrário, eu imagino que o basset leve vantagem. Qual desses dois você acha que ganha mais afagos?

É, pois é, eu também acho que é o de baixo. Mas imagine se o Basset crescesse ouvindo que só os galgos têm valor? Talvez mesmo o fato de saber que ele é um basset saudável não fosse suficiente para consolá-lo.
Um endomorfo dificilmente será um modelo de capa de revista, dada a norma social vigente. Por mais low carb que coma, por mais exercício que faça. Para os editores da revista, um basset magro não substitui um galgo. Mas e daí? Um basset mais magro é um basset mais saudável e mais feliz. Ainda é um pouco fofinho, digamos assim, mas não é obeso, não têm dor nas costas, e consegue subir sozinho no sofá.
Eu não tenho a fórmula para transformar bassets em galgos. Ninguém tem. Mas uma abordagempáleo, low carb, seguramente produzirá bassets (e pessoas) mais saudáveis, mais felizes, e que não precisam passar fome para não engordar.
Uma vez entendidas as limitações intransponíveis (o fato de que a loteria genética não é feita apenas de ganhadores), resta-nos refletir sobre a importância de ao menos poder interromper um processo – que parecia inexorável – de ganho de peso, restaurando a saúde e a sensação de bem estar, de forma SUSTENTÁVEL, pois não envolve fome crônica e não nos deixa escravos da comida, permitindo comer para viver, ao invés de viver para comer. Se houvesse uma pílula que fornecesse metade desse benefício, seria a pílula mais vendida da história.
Uma leitora me mandou a figura abaixo, dizendo que a postagem acima a ajudou a parar de agir como na caricatura. Sensacional:




